A Umbanda é paz e amor… é um mundo cheio de Luz! È a força que nos dá vida e a grandeza nos conduz! Avante, Filhos de Fé!

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Homenagens não trazem ninguém de volta, mas talvez ajudem a nós, os que ficamos, a curtir mais, e melhor, o que temos por perto, em lampejos de silêncio e contemplação (ato heróico na correria destes tempos loucos e fascinantes, mas a gente consegue). A morte, intrusa indesejada, sobre a qual tanto se fala, se pensa, se escreve, foi personagem de alguns de meus livros e causa de algumas incuráveis dores. Ela não pede licença: sem bater, escancara num repelão porta ou janela, entra num salto, com suas vestes cheirado o mofo e seus olhos de gato no escuro. Às vezes pega quem mais amamos. E aí não tem remédio, não tem descanso, não tem nada senão a dor — apesar da nossa natural dificuldade de lidar com ela, a dor é necessária nesses primeiros tempos. É preciso chegar ao fundo desse poço escuro para poder sair dele, ou ao menos ter a cabeça a tona d’água. Presenças bondosas, conforto de alguma palavra amiga, saber que os outros estão aí, que ajudam também nas coisas práticas, nos fazem sobrevivei. Mas não queiram que a gente não sofra, mesmo nesta cultura nossa do barulho e da agitação, em que no segundo dia já querem que a sente passe o batom e saia às compras. Não por maldade, mas por essa aflição que nos ataca diante do sofrimento alheio, em parte porque ele é uma ameaça à nossa vidinha bem-posta: seremos os próximos?

Embora eu acredite que permaneçam, não importa como, em forma de alma, energia ou memória, o que já seria muito bom: de memórias positivas, que nos iluminem, nos emocionem ou nos façam sorrir, parece que a dor não vai passar. E para nós que ficamos, sobra a  tarefa de preservar, no coração e no pensamento, esses que aparentemente perdemos, e de aos poucos retomar a vida — como os que se foram  gostariam que a gente fizesse.

Pois honrando a vida também estamos honrando os nossos mortos, que, na nossa lembrança não mais crispada, na nossa melancolia nao mais indignada, na integração de seus atos e palavras em nós, no que temos de melhor, continuarão vivos.
Em última analise, apesar de todo o dilaceramento, solidão e lágrimas, a morte (que não é fim, mas transformação), estranhamente, loucamente, tem um poderio limitado: seu dedo cruel e ossudo não consegue encontrar a tecla com que delerar nossos melhores afetos.
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A Umbanda e Eu

Me lembro de como entortava o nariz para a umbanda antes de conhece-la. Freqüentava a Federação Espírita de São Paulo e por muitas vezes me mandaram começar o curso de mediunidade pois eu ‘precisava trabalhar esse dom’. No final das contas, nunca ia.

Sempre tive fé mas nunca fui de rezar muito. Na minha cabeça, nossas atitudes falam por nós. Conheço tanta gente que reza de manhã, a tarde e a noite, mas não honra uma palavra sequer de suas orações…

Um dia conheci um centro mesa branca perto de casa. Muita gente do bairro freqüentava… Apesar de seguirem o mesmo jeitão da Federação, ao final das palestras e dos passes magnéticos nas salinhas de luz azul, uma das médiuns da casa incorporava uma índia chamada Cheiro de Flor. Eu achava lindo ver aquela entidade dando um brado ao chegar em terra e falar com jeito de índia.. ela passava de pessoa em pessoa, às vezes dizendo algo impactante, às vezes apenas derrubando suas pétalas embelezadas de Tupã.

Ao mesmo tempo, eu nunca aceitei bem a umbanda e o candomblé. A começar que eu colocava tudo no mesmo saco, como muita gente faz. Não entendia e criticava o fato dos guias fumarem. Não entendia guias. Tinha horror aos atabaques. Pois é.

Por duas vezes, movida pela curiosidade fui a tarólogas. Uma delas, me disse coisas que eu não queria ouvir e a taxei de charlatã. A outra queria me cobrar R$ 250 pra acender velas de mel e trazer de volta meu grande amor. Ah, tá.

Um dia, uma amiga me convidou pra conhecer um outro centro dela. Disse que era kardecista. Sem atabaques, mas com alguns médiuns com guias e muitas puxadas de carga. Lá eles disseram muitas coisas que eu queria ouvir…. Ao mesmo tempo, minha mãe, em uma de suas andanças pela Vila, ouviu certo domingo barulho de atabaques. Macumbeira que sempre foi, entrou, gostou e vendo meu sofrimento me arrastou pra lá. Me apaixonei ao ouvir os sons dos atabaques, uma voz maravilhosa de um ogã na curimba e até me esqueci do preconceito que tinha com os cachimbos.

Porém, lá eles não me diziam nada sobre o amor perdido. Mandavam eu cuidar de mim, me fortalecer, crer, etc. Não me diziam nada de extraordinário e eu até achava que eles não diziam nada que eu já não soubesse, mas não concordava. Não era bem o que eu queria ouvir, mas me sentia bem.

Frequentei os dois ao mesmo tempo por algumas semanas, até que o primeiro centro entrou em férias e eu me vi freqüentando apenas a casa que hoje é a minha. Coincidência? Duvido.

Sentava em frente a Vó Augusta e chorava até desidratar a falta daquele que eu achava que era meu único e verdadeiro amor. Um certo Lorinho, atabaqueiro da curimba me dava papel para enxugar as lágrimas. Eu até via a Vó Augusta rindo pro Pai Simão, que sentava perto, mas não entendia. Hoje até entendo. rs….

O tempo foi passando, eu fui melhorando…. Houve uma festa junina beneficente promovida pela casa e lá fui eu, mãe e primos jogar bingo. Ali estreitei os laços com o tal Lorinho, que me comprou do meu primo por dois quentões e uma coxinha (mas isso é outra história)…

Namorar alguém da casa me aproximou mais das pessoas e dos trabalhos, inevitavelmente. Cansei de ‘passar mal’ durante as giras, enquanto espetava minha vez de ser atendida. Sempre quis trabalhar…. achava lindo aquelas pessoas servindo de aparelhos para os guias e fazendo caridade. Achava lindo ver as pessoas saindo mais felizes dos bancados dos pretos-velhos.

Nunca imaginei que os médiuns fossem privilegiados por serem médiuns e sempre achei lindo o ritual e a caridade, e não entendia o porque nunca tinham me chamado pra fazer parte das giras, sabendo que sensibilidade – lógico – eu tinha!

Apesar de parecer metida, sou legal. Eu não entendia como é que os guias não viam toda a minha vontade de ajudar e de fazer o bem pras pessoas….

Quando entendi que mesmo sem querer eu alimentava uma certa vaidade emn relação a mediunidade e ao trabalho (ainda que uma vaidade branca) e passei a trabalhar esse sentimento, quando menos esperava aconteceu.

Fui pra curimba, aproveitar os dotes musicais dados por Deus, para fazer aquela gira ainda mais forte e bonita. Quando me colocaram pra rodar a coisa pegou pro meu lado. Só estando lá no meio é que a gente percebe que não entendia nada de nada, antes. Pelo menos comigo foi assim….

Hoje, alguns meses de trabalho, algumas festas depois, uma quaresma depois, me sinto muito, muito pequena como médium, mas com uma vontade enorme de aprender cada vez mais. Aprender a servir da forma correta os guias. Aprender a ajudar as pessoas pela caridade pura. Aprender o que é ter paciência e aprender o que é crer.

Para se crer, é necessário querer crer, pra começar. O exercício da fé não é fácil. Muitas vezes as aflições da vida, das pequenas as grandes, nos tiram do prumo, nos revoltam… Nossa, como é difícil simplesmente acalmar o coração e deixar as coisas fluírem.

Um terreiro é feito de pessoas e acho normal que hajam discordâncias em alguns momentos. Se a gente fosse tudo santo, eram as nossas imagens que estariam em cima do congá, não as dos orixás. Mas, com todos os problemas que a vida em grupo possa acarretar, o mais importante é ter a certeza de que, quando um precisar, toda uma corrente (encarnada e desencarnada) vai estar lá por nós.

E isso causa inveja. Causa inveja porque a seleção natural da vida expulsa as pessoas que não pertencem realmente ao grupo. E os excluídos desdenham, mas querendo comprar…..

Eu acredito em inveja e em sentimentos negativos. A força do pensamento, para o bem ou para o mal, é uma coisa muito forte. Acredito sim que o ‘Mal’ possa estar por cima da carne seca. Mas só por alguns momentos. Só enquanto a lição não é aprendida por todos. Só enquanto Deus permitir e se Ele permite, é porque tem seus motivos. Isso é fé. Não ‘pollyanismo’, mas fé.

A fé que nos faz ter certeza de que em algumas horas, ao botar o pé pra dentro daquele terreiro, vestidos de branco, alguém maior vai fazer algo por nós e nos aliviar. A fé que nos dá a certeza de que não estamos sozinhos em momento nenhum (dá até medo as vezes, principalmente quando você tem um corredor muito sinistro na sua casa e seus guardiões ficam o tempo todo ali, a postos!).

É a fé que nos faz fincar os pés na areia, mesmo quando o corpo quer ir embora, mesmo quando o corpo está cansado. É a fé que nos faz perdoar em minutos uma resposta mais mal educada de um, ou uma falta de reconhecimento de outro.

É a fé que no faz, no meio da tarde, dirigir um pensamento ao congá pedindo proteção quando algo parece nos ameaçar. É a fé que os faz gastar um dinheirinho que às vezes nem podíamos, pra fazer uma guia, porque assim foi pedido. É a fé que nos faz amar uma pessoa que nem conhecemos direito. É a fé que nos faz nos preocupar com alguém da assistência que vimos mal.

É a fé que nos faz saber quando aquela pessoa na sua frente não é aquele médium que às vezes não temos muita afinidade, mas sim um índio enorme com um arco e uma flecha nas mãos, ou um senhor negro, arqueado, magrinho, fumando cigarro de palha.

É a fé que faz nosso sangue correr nas veias e nosso coração bater forte, quando os poros se abrem, os pelo dos braços arrepiam, a espinha fica gelada e o pescoço quente. Só ela.

E é a fé que me dá a certeza de que com a nossa Lei não há! Porque onde se faz um trabalho sério, com amor e com verdade, a proteção divina age em todos os momentos. E se, em algum momento a fé falha, a bateria acaba, enquanto ela carrega, temos irmãos de fé para nos escorarmos até que a recarga esteja completa.

Avante, filhos de Fé! Com a nossa Lei, não há!

Batendo um papo de coração

Toda vez que entro no terreiro e vou lá bater a minha cabeça* para começar os trabalhos faço apenas duas observações para as entidades que nos assistem lá: que me use como instrumento de caridade da melhor forma possível e que me ajude a ser merecedora das coisas que eu possa vir a pedir.

E vou falar uma coisa: as coisas acontecem…. Estava no trânsito ontem (ah, vá!) e fiquei pensando um uma coisa que Lorinho me disse na semana passada. Numa dessas discussões de ‘vamos ou não vamos gastar x de dinheiro num jantar mais caro nesse final de semana’ ele me disse que ‘crescer não é tirar de um lado para colocar no outro. Crescer e continuar fazendo as coisas que sempre fizemos e conseguir mais’. E nessa hora eu percebi o quanto crescemos em dois anos de relacionamento. Juntos. Espiritualmente e como pessoas. E materialmente também, claro.

Resolvemos nos casar, as coisas foram acontecendo, melhorando e eu sou muito grata, todos os dias a meu Pai lá no alto, que dá um jeito de prover tudo aquilo que precisamos, na hora certa.

Quem tá casando, montando casa, sabe o medinho que dá. É tanta coisa (grande e miúda) pra comprar que tem que ter coragem… aí… de repente, meia dúzia de amigos queridos se juntam e te dão um fogão de presente…. uma tia que a gente sabe que nem pode tanto assim, te dá um microondas…

E quando você acha que Deus já foi muito justo com você e já te deu mais do que aquela mãozinha, você recebe uma ligação de alguns parentes que se juntaram pra te dar uma geladeira!!! E você não cabe em si de alegria por saber que sim, está fazendo um bom trabalho e está sendo merecedora de que coisas boas aconteçam com você.

Mantenham-se no bom caminho. Vão pela Luz.

Obrigada! Obrigada meu Deus, obrigada meus amigos! Estou realmente com o coração repleto de amor, carinho e gratidão.

*O ato de bater cabeça, talvez seja a parte da ritualística umbandista cuja simbologia esteja no inconsciente coletivo da humanidade desde o princípio dos tempos.
O ato de levar a cabeça ao solo é encontrado, praticamente, em todas as religiões e foi trazido para alguns protocolos do mundano tendo em vista que em muitas sociedades os seus soberanos eram tidos como representantes terrenos da divindade.
Seu significado pode ser interpretado como (reconhecimento da) submissão do ser humano diante da onipotência da deidade, muitas vezes representada através de fenômenos da Natureza. Ou seja, a aceitação de nossas limitações diante daquilo que não podemos controlar. Trata-se, portanto, de um sinal de respeito e de entrega.
Também pode ser entendido como representação de humildade, bem como uma forma de agradecimento (p.e., à Mãe-Terra que, através de seus mistérios, nos dá tudo o que nos sustenta e mantém).
Pode-se, então, dizer que na Umbanda bater cabeça significa respeito pela deidade, orixás, guias e entidades que são representadas tanto pelo congá ou congar, como por pontos de força ou energia (a tronqueira e os atabaques), e ainda nas figuras dos sacerdotes e sacerdotisas ou mais velhos na religião.
A ritualística pode variar de terreiro para terreiro, função de doutrina e fundamentos próprios.